O crescimento das apostas online no Brasil começa a produzir consequências que ultrapassam as perdas financeiras individuais e chegam aos processos de divórcio. Em relacionamentos nos quais um dos cônjuges utiliza dinheiro da família, contrai empréstimos escondidos ou vende bens para continuar apostando, uma das principais dúvidas é: o outro também terá de pagar essa conta?
A resposta depende das circunstâncias. Dívidas contraídas durante o casamento não são automaticamente divididas entre o casal. Para definir quem responde pelo débito, é necessário analisar o regime de bens, quem assumiu a obrigação e, principalmente, se aquele dinheiro foi utilizado em benefício da família.
O tema ganhou repercussão após um caso recente em Goiás. Em julho, a Justiça determinou o afastamento do lar de um homem acusado de utilizar recursos do patrimônio comum e bens particulares da esposa para financiar apostas online. O Judiciário também determinou a indisponibilidade do imóvel do casal diante do risco de que o bem fosse vendido ou utilizado para pagar dívidas pessoais.
Segundo o processo, a mulher alegou ainda que um veículo de sua propriedade teria sido vendido sem autorização para pagamento de dívidas. Extratos bancários, contratos de empréstimo, comprovantes de pagamentos e documentos relacionados à venda do automóvel foram considerados pelo juiz na análise inicial do caso.
De acordo com o advogado Luiz Vasconcelos Jr., especialista em Direito de Família e Sucessões do VLV Advogados, gastos realizados exclusivamente com apostas e sem benefício para a família podem ser tratados de forma diferente das despesas comuns do casamento.
“Uma dívida contraída durante o relacionamento não necessariamente será dividida entre os dois. Quando é possível demonstrar que o dinheiro foi utilizado exclusivamente para apostas, sem conhecimento do outro cônjuge e sem qualquer benefício para a família, existem argumentos para que esse débito seja reconhecido como pessoal de quem apostou”, explica.
A análise muda conforme o regime de bens. Na comunhão parcial, por exemplo, há comunicação do patrimônio adquirido durante o casamento, mas isso não significa que qualquer dívida pessoal assumida por um dos cônjuges será automaticamente suportada pelo outro.
A legislação prevê responsabilidade conjunta especialmente para obrigações relacionadas às necessidades da família. Apostas realizadas por interesse exclusivamente pessoal podem não se enquadrar nessa lógica.
O impacto jurídico se torna mais grave quando as apostas passam a consumir o próprio patrimônio do casal.
Retiradas frequentes de dinheiro, empréstimos desconhecidos pelo parceiro, atraso de despesas domésticas, venda de veículos, movimentação de investimentos e tentativa de negociar imóveis podem indicar risco de dilapidação patrimonial.
Nessas situações, o cônjuge prejudicado pode discutir judicialmente não apenas quem deverá pagar as dívidas, mas também a preservação dos bens que ainda existem.
“Se houver venda de bens, retirada de dinheiro ou utilização indevida do patrimônio comum, podem ser discutidas medidas para preservar o patrimônio e até uma eventual reparação pelos prejuízos. Dependendo das provas e das circunstâncias do processo, a própria divisão dos bens poderá ser objeto de discussão”, afirma Vasconcelos.
No processo de Goiás, além do afastamento do lar, a Justiça determinou provisoriamente a indisponibilidade do imóvel. Os pedidos relacionados às dívidas, à reparação patrimonial e à forma definitiva de divisão dos bens ainda deverão ser analisados no decorrer da ação.
Quando há suspeita de que apostas estejam comprometendo o patrimônio familiar, a documentação financeira passa a ter papel importante.
Extratos bancários, faturas de cartão de crédito, contratos de empréstimos, comprovantes de transferências, documentos de compra e venda de bens e conversas relacionadas às dívidas podem ajudar a reconstruir a movimentação financeira e demonstrar para onde o dinheiro foi direcionado.
Também é importante preservar registros das despesas normais da família, o que pode ajudar a diferenciar obrigações assumidas para manutenção da casa de gastos realizados exclusivamente com jogos.
“Quanto mais cedo essas movimentações forem identificadas e documentadas, maior a possibilidade de compreender o que aconteceu com o patrimônio. Em situações de risco concreto de venda ou ocultação de bens, também pode ser necessário avaliar medidas judiciais urgentes”, explica o advogado.
Fonte: sbtnews
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