No início de junho, ao menos 30 mulheres foram detidas na cidade de Herat por supostamente descumprirem regras de vestimenta impostas pelo regime. As imagens das prisões repercutiram nas redes sociais e reacenderam o debate internacional sobre as restrições impostas pelo Talibã aos direitos das mulheres. Desde que retomou o poder, em agosto de 2021, o grupo implementou uma série de medidas que limitaram o acesso feminino à educação, ao trabalho e à vida pública.
A ação desencadeou protestos reprimidos com violência, deixando mortos e feridos, segundo a Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão (Unama). A ONU Mulheres classificou as prisões como motivo de "grave preocupação" e alertou que os episódios refletem o endurecimento contínuo das medidas adotadas pelo regime contra as mulheres.
Usuários de diferentes países compartilharam vídeos, relatos e campanhas para explicar a situação das mulheres afegãs. Entre os conteúdos, comparações destacavam o contraste entre a liberdade de mulheres em diferentes partes do mundo para estudar, participar de atividades sociais e fazer escolhas e as restrições enfrentadas pelas afegãs, como regras de vestimenta e limitações ao acesso a espaços públicos.
Em junho, enquanto a ONU Mulheres alertava para o agravamento da crise humanitária e das restrições impostas pelo Talibã, hashtags como #MulheresAfegãs e #DireitosDasMulheres foram usadas para compartilhar informações e campanhas de conscientização.
Para o professor e pesquisador de mídia e sociedade contemporânea Luis Mauro Sá Martino, a circulação desses conteúdos está relacionada à capacidade de determinados acontecimentos despertarem identificação entre o público.
“Em linhas gerais, para se tornar parte de um debate, um acontecimento internacional precisa ter algumas características específicas — mais ou menos as mesmas que fazem um fato virar notícia. Dentre elas, podemos destacar o tamanho do fato (isto é, quantas pessoas são atingidas), as possíveis consequências (por exemplo, o que muda no cotidiano brasileiro) e, em particular, o interesse humano de uma história — a possibilidade de nos identificarmos, no todo ou em parte, por elas”, afirma Martino.
Segundo Martino, as redes sociais ampliam a circulação dessas histórias, mas também influenciam a forma como são percebidas. "Não se compartilha todo conteúdo, mas apenas aqueles que, de algum modo, estão de acordo com o que se pensa. Isso acaba reforçando um viés de percepção do fato", explica.
Restrições às mulheres aumentaram desde 2021
As prisões em Herat refletem o endurecimento das restrições impostas pelo Talibã desde a retomada do poder, em agosto de 2021. Segundo a ONU, o regime restringiu direitos relacionados à educação, ao trabalho, à circulação e à vida pública, além de impor regras sobre vestimenta e deslocamento das mulheres.
Em 2024, essas medidas foram reforçadas pela lei de “promoção da virtude e prevenção do vício”. De acordo com a Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão (Unama), a legislação determinou que a voz das mulheres não deve ser ouvida por homens que não sejam familiares próximos e ampliou a fiscalização sobre o da população.
As restrições já refletem nos indicadores sociais. Segundo a ONU Mulheres, 78% das jovens afegãs não estudam, trabalham ou recebem treinamento. A mortalidade materna pode aumentar mais de 50% até 2026, e apenas 38% das mulheres dizem ter influência nas decisões dentro de casa, permanecendo excluídas dos cargos de decisão do governo de fato do Talibã.
Fonte: sbtnews
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