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Com Jonatha Melonio

Dia Mundial da Conscientização do Autismo: entenda o espectro e a importância do diagnóstico

Doutora em Neurociências alerta para os riscos do autodiagnóstico e explica os níveis de suporte no Transtorno do Espectro Autista (TEA).

02 de Abril de 2026 16:00

O autismo tem sido diagnosticado com frequência crescente, inclusive em adultos. Se por um lado as redes sociais impulsionam a conscientização, por outro, acendem um alerta para o cuidado com autodiagnósticos, estereotipização e a banalização da condição. Estipulado pela Organização das Nações Unidas (ONU), o Dia Mundial da Conscientização do Autismo em 2 de abril busca promover o conhecimento sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), combater o preconceito e valorizar a neurodiversidade.

Para esclarecer as principais dúvidas e os desafios do diagnóstico, Tânia Morales recebeu a Dra. Anita Brito, doutora em neurociências e coordenadora do Centro de Neurodesenvolvimento e Reabilitação (CNR) do Instituto Jô Clemente (IJC).

O que é o Transtorno do Espectro Autista (TEA)
O autismo é um espectro que abrange um conjunto de características variáveis em intensidade e forma. É uma condição de desenvolvimento que afeta a comunicação, a interação social e o comportamento.

“O autismo tem a ver com o nascimento, a pessoa já nasce autista, não se torna autista. É um contínuo entre a genética e o ambiente. Não há uma causa única ou cura”, explica a Dra. Anita Brito.
Os fatores de risco incluem predisposição genética, idade paterna avançada (espermatozoides mais velhos) e infecções maternas durante a gestação. Diferente de falácias antigas, a ciência comprova que o autismo não é causado por falta de estímulo ou negligência parental.

Como é o diagnóstico do autismo?
Embora exames genéticos ajudem na investigação, eles sozinhos não garantem a confirmação do Transtorno do Espectro Autista (TEA). O diagnóstico é estritamente clínico, baseado na observação do comportamento, na história de vida e em entrevistas com responsáveis. Em 2025, a Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) publicou uma atualização das recomendações para o diagnóstico e tratamento.

No Brasil, os especialistas seguem os critérios do DSM-5 do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria para evitar diagnósticos falhos. “Não se fecha o diagnóstico por um único ponto. É preciso montar um quebra-cabeça”, enfatiza a Dra. Anita.

Ela nota que diagnosticar adultos é mais complexo, pois exige resgatar a história infantil para não confundir o TEA com depressão ou outros transtornos desenvolvidos ao longo da vida, além de considerar a camuflagem social, uma estratégia consciente ou inconsciente de imitação de comportamentos considerados "normais" ou neurotípicos para se adequar socialmente.

Níveis de Suporte do Autismo
Atualmente, o TEA é classificado por Níveis de Suporte (1, 2 e 3), focando na necessidade de auxílio do indivíduo.

Nível 1: Exige suporte, mas o indivíduo tem maior autonomia;
Nível 2: Necessita de suporte essencial;
Nível 3: Requer suporte muito essencial, constante.
A Dra. Anita enfatiza que o termo "leve" pode desamparar quem precisa de ajuda. Para ela, a mudança é positiva:

“A gente não usa mais a palavra leve, porque acaba desrespeitando. Se você precisa de algum suporte, as pessoas não querem dar. A gente usa nível 1 de suporte. Todo autista para ser diagnosticado com autismo, precisa necessariamente, de acordo com o DSM-5, ter um nível de suporte”.

Características do Transtorno do Espectro Autista
A doutora em neurociências enfatiza que cada pessoa desenvolve um autismo próprio, ou seja, com elementos comuns, mas com individualidades e características únicas. Entre alguns sinais do Transtorno do Espectro Autista estão:

- Dificuldades na socialização: desafios em manter contato visual e em fazer amizades;
- Hiperfocos: Interesses restritos e intensos por temas específicos (como dinossauros, moedas ou línguas), que geram prazer ao indivíduo. “São focos que duram a vida toda, diferente do TDAH onde são focos evanescentes”, comenta.
- Estereotipias: Comportamentos motores ou vocais repetitivos, como o flapping (balançar as mãos) ou sons vocais discretos;
- Comportamentos Repetitivos: Diferente do TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), que causa angústia, as repetições no autismo geralmente trazem satisfação. “No autismo são comportamentos restritos repetitivos que dão prazer e não angústia.”, exemplifica a médica
O foco do tratamento para níveis de suporte do TEA é a plasticidade cerebral. Quanto mais cedo o diagnóstico e o início dos estímulos começarem, melhor será a trajetória, autonomia e independência da pessoa autista.

Diagnóstico, Tratamento e Direitos das Pessoas com Transtorno do Espectro Autista
Para crianças ou adultos, ter diagnóstico correto do Transtorno do Espectro Autista pode evitar outras comorbidades e melhorar a qualidade de vida. Apenas autotestes ou identificação dos sinais não são adequados, sendo necessário procurar ajuda especializada de psiquiatras e neurologistas para investigação. Cada particularidade precisa ser analisada com base nas regras pré-estabelecidas e histórico do paciente.

O tratamento para o autismo, de acordo com a Dra. Anita Bito, é multidisciplinar, considerando nível de suporte e complexidade individual. Cada terapia foca no desenvolvimento de habilidades sociais, de comunicação e autonomia. Mesmo sem cura, há melhora significativa nas relações sociais e na saúde mental com pequenas adaptações diárias.

Para a coordenadora do Centro de Neurodesenvolvimento e Reabilitação (CNR) do Instituto Jô Clemente (IJC), o acompanhamento de crianças é importante para evitar, ainda, casos de bullying ou rejeição escolar. “No tratamento, principalmente de jovens e adultos, a gente vai trabalhando na ampliação do repertório não para tirar dela a capacidade, mas para que ela tenha mais dignidade, autonomia, independência”, completa.

Para buscar ajuda para o Transtorno do Espectro Autista (TEA), existem diversos caminhos gratuitos e especializados. Instituições privadas e ONGs já realizam trabalhos de conscientização e apoio. Na rede pública, as primeiras avaliações são feitas nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), com encaminhamento para atendimentos em centros especializados para diagnóstico, tratamento e acolhimento para autistas e seus familiares.

O Brasil tem 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA), representando 1,2% da população. Os homens são maioria entre quem declara a condição e há mais diagnósticos entre pessoas de 5 a 9 anos. As informações são do Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o primeiro levantamento dos dados de pessoas com TEA no país.

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é considerado deficiência para todos os efeitos legais no Brasil. Pessoas diagnosticadas têm direito ao uso do Cordão de Girassol para deficiências ocultas, além de outros direitos preferenciais de políticas públicas para saúde, educação, trabalho e outras.

Fonte: CBN

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